Por António Silva, USF MaxiSaúde, Cávado I
Pergunta clínica: O nível elevado de ácido úrico está associado a maior risco de doença cardíaca isquémica (DCI) e de tensão arterial elevada (TAE)?
Desenho do estudo: Análise aleatorizada mendeliana, realizada a partir dos dados coletados de dois estudos coorte dinamarqueses. Num deles, os valores de ácido úrico plasmático e da tensão arterial foram medidos em 58072 doentes, dos quais 4890 apresentavam DCI. Na outra coorte, os mesmos valores foram medidos em 10602 doentes, dos quais 2282 com DCI. A DCI foi definida como angina de peito ou enfarte do miocárdio. Foi avaliada a repercussão do Índice de Massa Corporal (IMC) sobre os níveis de ácido úrico para determinar o possível efeito de confundimento desta variável.
Resultados: O aumento do valor de ácido úrico foi associado a um acréscimo do risco de DCI e com elevação da pressão arterial sistólica e diastólica. No entanto, quando realizada a análise aleatorizada mendeliana, não se evidenciou qualquer efeito causal entre o valor elevado de ácido úrico ou hiperuricémia e o risco aumentado de DCI ou de TAE. Foi atribuído um provável e importante papel de confundimento do IMC nesta associação por se constatar um efeito causal entre o aumento do IMC e os níveis de ácido úrico. Variações no gene SLC2A9 (que causam aumento dos níveis de ácido úrico) não foram associadas a um maior risco de DCI ou TAE
Conclusão: Não há evidência que suporte a associação entre valores elevados de ácido úrico e maior risco de DCI ou TAE.
Comentário: Alguns estudos prévios reportaram uma eventual associação entre níveis elevados de ácido úrico e aumento do risco de DCI e TAE. Este artigo não evidenciou essa associação e procurou justificar os achados dos estudos observacionais. Uma vez que os valores de ácido úrico se elevam à medida que aumenta o IMC, e sendo o IMC um factor de risco estabelecido para a TAE e DCI, poderá estar encontrada a chave que esclarece a associação aparente do ácido úrico com o aumento do risco cardiovascular, actuando o IMC como uma variável com efeito de confundimento. Por conseguinte, a determinação dos valores de ácido úrico parece possuir um interesse clínico muito limitado na avaliação da DCI e da TAE. Tendo em conta os princípios basilares da prevenção quaternária e o actual contexto social e económico devemos evitar gastos desnecessários. Por esta razão, o médico de família deve manter-se actualizado para, de forma fundamentada e sempre centrada no doente, poder exercer uma correcta gestão de recursos na sua prática clínica.
