Rosas à cabeceira de videiras

 

 

Num dia deste Verão – em que a minha memória se ocupa agora de colocar a pandemia em pausa – percorri vinhas. Pareciam fortes e inabaláveis e para regalo da minha vista tinham rosas (de um rosa aberto e que diria quase rubro) como remate. Questionei o porquê destas rosas à cabeceira das videiras. “É um costume” – ouvi e quase aceitei. Este sentido estético dos vinicultores apanhou-me de surpresa. Preferia não ter continuado a procurar explicações e ter-me devotado em exclusivo àquele espectáculo visual. Mas não pude. Descobri que, pelo facto de algumas pragas acometerem primeiramente as rosas, este hábito permitiria, de alguma forma, prever e tentar evitar que a praga chegasse à vinha.

A simplicidade contida nesta explicação de prevenção em agricultura é a simplicidade que não existe na prevenção em Medicina. Este costume – de plantar roseiras nos topos das filas de videiras para sinalizar pragas – pode ser analogia para alguns conceitos importantes relacionados com alguns testes de rastreio (prevenção secundária). Imaginemos que as rosas sinalizam a praga, rapidamente se aplica um tratamento e se salva a videira da morte certa. Se o teste de rastreio sinalizasse sempre doença e o resultado do tratamento fosse sempre o de salvar vidas, teríamos o teste de rastreio ideal. Mas, nos rastreios, nem tudo são rosas…  Pode acontecer também que as rosas sinalizem praga, mas na verdade, não ocorra doença na vinha: é um falso positivo. Imaginemos, agora, que as rosas sinalizam o “mal”, que vem a descobrir-se existir de facto na vinha, mas esse “mal” nunca lhe causaria problemas: é isto o sobrediagnóstico. Por conseguinte, se uso um tratamento que prejudica a vinha para tratar uma praga que não lhe causaria problemas: será isto o sobretratamento.

É necessário que o discurso inflamado de entusiamo pela prevenção encontre equilíbrio na comunicação, a par dos benefícios, também dos riscos, intimamente relacionados com os conceitos acima destacados e com o de prevenção quaternária.

Voltemos às rosas e às videiras. Que grandioso quadro, assim o recordo: a flor coroava o fruto e o fruto protegia a seiva.

Por Sofia Baptista

 

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